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NOBEL BRITÂNICO FAZ PALESTRA EM SÃO PAULO

Sir John Sulston, que coordenou a participação do Reino Unido no Projeto Genoma Humano, debate ética na pesquisa em 24 de junho no Centro Brasileiro Britânico

Sir John, que recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 2002, visitou São Paulo por um dia onde proferiu uma palestra, seguida de debate, sobre ética e propriedade intelectual no campo da pesquisa genômica, no Centro Brasileiro Britânico no dia 24 de junho. A visita foi organizada pelo British Council e pelo Consulado Britânico em São Paulo. Duzentos pesquisadores e estudantes de pós-graduação estavam na platéia e participaram ativamente do debate.

Patentes e propriedade intelectual são, inquestionavelmente, fatores essenciais das atividades comerciais atualmente, mas de acordo com o cientista Sir John Sulston, quando a discussão chega ao reino da ciência, o valor comercial não pode ser o único item a ser considerado.

“Eu não sou contra patentes, sou contra o abuso nas patentes”, enfatizou o pesquisador durante o evento. “A ciência não pode ser refém dos interesses econômicos das grandes industrias farmacéuticas. O lucro leva a algumas curas, mas certamente não a todas”. Uma consequência da busca pelo lucro é que a pesquisa médica e seu desenvolvimento está principalmente restrita às doenças do mundo desenvolvido – onde as pessoas podem pagar pelo tratamento – neglicenciando aquelas que afetam os países em desenvolvimento. Então, 90% das doenças do mundo recebem 10% dos fundos de pesquisa.

O principal argumento de Sir John é que propriedade intelectual e patentes devem ser restritas a invenções e não aplicáveis a recursos naturais que pertencem a humanidade. Ele defendeu esta bandeira como o líder da participação britânica no Projeto Genoma Humano, um consórcio internacional de laboratórios de pesquisa que sequenciou o DNA humano. O projeto terminou em 2003 e o Reino Unido foi responsável por 1/3 de todos os dados produzidos. No meio do projeto, uma empresa privada americana declarou que poderia fazer o trabalho mais rápido e mais barato. Isto significava que eles teriam o controle das informações contidas no genoma humano, com um potencial imensurável para ganhos comerciais.

O Reino Unido acredita que o sequenciamento do genoma humano é uma descoberta, não uma invenção, e deve estar disponível para todos. “É nossa herança inalienável”, diz o Prêmio Nobel. Esta disputa terminou favoravelmente para a comunidade científica internacional, com todas as informações disponíveis num banco de dados público e gratuito. Entretanto, existem ainda muitas batalhas a serem travadas. “Os governos devem garantir que o conhecimento como um todo seja de domínio público. A globalização não deve ser somente sobre competição mas também sobre idéias”.

Como uma solução para este impasse, Sir John apoio a criação de um fundo internacional de pesquisa genética, que possa reduzir a dependência atual dos pesquisadores das empresas comerciais. A idéia é que cada país contribua com uma porcentagem de seu PIB, criando um sistema mais igualitário. Durante a palestra, ele também sugeriu que os organismos internacionais, como as Naçoes Unidas, sejam reponsáveis pela definição das bases para as leis de patentes e propriedade intelectual.

O Sr Andrew Henderson, Consul Geral em São Paulo abriu o evento. Como diretor da iniciativa Reino Unido Comércio e Investimentos no Brasil, ele enfatizou a importância da busca por um equilíbrio entre a exploração comercial descontrolada da ciência e a experiência acadêmica limitada. Dois cientistas brasileiros também participaram do evento. O Dr. José Fernando Perez, Diretor Científico da FAPESP, falou sobre os programas de genoma da instituição. Apesar do Brasil ter demorado para entrar na área da genômica, em menos de dez anos o país estabeleceu-se como um líder mundial no sequenciamento de fitopatógenos.

A outra convidade foi a Dr. Mayana Zatz, Diretora do Centro de Pesquisa Genômica da USP. Ela discutiu as implicações éticas na pesquisa genética, como o direito de utilizar embriões humanos descartados na pesquisa para o tratamento de doenças como o Mal de Alzheimer ou a distrofia muscular.

A discussão sobre ética e as implicações comerciais da pesquisa científica aconteceu em um momento ideal para o Brasil. Em 2002, após extensivos debates internos, o Reino Unido foi pioneiro em permitir o uso de células tronco de embriões na pesquisa. O Brasil está, atualmente, debatendo amplamente a legislação de bio-segurança no Congresso. Quando a lei esteve em discussão na Câmara dos Deputados, um bloco de congressistas ligados a igrejas cristãs conseguiu inserir uma cláusula que bane o uso de células tronco de embriões na pesquisa genética. A Dra. Mayana, entre outros cientistas, vem fazendo campanha junto ao Senado para alterar esta cláusula.

Depois de uma semana em Buenos Aires, onde participou das celebrações dos 50 anos de DNA na Argentina, Sir John and Lady Daphne Sulston ficaram 4 dias em Foz do Iguaçu, onde caminharam bastante no parque nacional. Da selva de concreto de São Paulo, uma das memórias favoritas será uma visita rápida que fizeram ao Instituto Butantan, onde Sir John esqueceu-se de suas responsabilidades e mostrou que ainda tem o principal traço que atraia as pessoas à ciência: a curiosidade.

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